Mediação de Conflitos: buscando a diferença entre ter razão e ser feliz

O conflito é um sinal de que existem verdades mais amplas e perspectivas mais belas. Alfred North Whitehead
A frase nos lembra: sem conflitos o mundo poderia ser mais confortável, mas também seria menos interessante e menos diverso. 

A tese por trás desta afirmação é que todos podemos encontrar em nossas vidas exemplos de como divergências impulsionaram projetos e nosso desenvolvimento, trouxeram a riqueza da mudança e da diversidade. 

Mas, quando as diferenças crescem sem um encaminhamento, causam estagnação e desvio de rumo. E neste início de século, dado a rapidez com que as empresas as carreiras se transformam, os cenários para bons atritos se oferecem a cada esquina. E o tempo para cuidar deles é pequeno.

O que fazer? Contornar? Ignorar? Brigar? Estas opções refletem as reações essenciais que herdamos com nossa “porção animal”, sabidamente não muito pequena: fugir, “fingir-se de morto” ou agredir. 

As particularidades de nossa cultura brasileira (vistas pela ótica deste descendente de alemães) tendem a acentuar o “contornar” e o “não é comigo”, mas conflitos manifestos também existem por aqui. (Como mediadores, preferimos os manifestos. É mais difícil atuar em “guerra fria”.)

Quando nos defrontamos com um conflito que passou do estágio do “há uma diferença de opiniões” ou “temos uma divergência” e apresenta os primeiros sinais de fuga, fingir-se de morto ou agressão, vale a pena perguntarmos: qual o custo destas manifestações? 

Quanto vale o tempo de vida empenhado nos pensamentos e sentimentos que giram em torno do conflito? A perda de concentração e de sono? Qual o custo de oportunidade de projetos estagnados ou protelados? De decisões que acomodam, em vez de resolver? Da insegurança gerada nas equipes envolvidas? (pois só os protagonistas acreditam que conseguem “disfarçar” quando estão envolvidos em um conflito)

Dito de outra forma, aqui a pergunta é: quanto custa não investir em mediação de conflitos? Fazer este exercício talvez nem sempre leve a números com cifrões, mas elevará a percepção de custo. E perante esta percepção e o valor de uma mediação de conflitos conduzida de forma profissional poderá ser melhor avaliado.

É bom lembrar que aqui há um custo difícil de ser mensurado: o primeiro investimento por parte dos envolvidos é o da disposição interior: dar uma oportunidade para a reflexão, admitir que você talvez não seja o único que tem razão, que tem um papel no conflito. Ante este custo, pode ser mais fácil dizer: “mediação profissional sai caro”.

Há outros ganhos ainda não mencionados: o processo pode ser mais importante que o acordo resultante! Quanto vale a oportunidade para resgatar valores essenciais, prioridades, a noção do que “realmente importa nesta vida”? E a possibilidade de lapidar a própria atuação, desenvolver empatia e a capacidade de interagir de forma mais construtiva? 

O investimento monetário posteriormente poderá parecer pequeno, perante os ganhos possíveis, inclusive monetários, quando o conflito sair de cena como “dreno” de tempo, energia vital e recursos.

Por todos estes motivos os conflitos proporcionam excelentes pontos de partida para processos de Desenvolvimento Organizacional (e pessoal). A mediação de conflitos soma-se com perfeição à mudança de paradigmas pela qual trabalhamos em todos os nossos projetos: de um mundo hierárquico para o crescimento e a valorização de cada ser humano. Afinal, “apoiar o ser humano na aventura de tornar-se livre, e assumir seu lugar único da vida e na construção de organizações saudáveis” é nosso propósito.

A essência de nossa tarefa como mediadores é a de abrir um espaço, criar um ambiente no qual o “enredamento no conflito” vivido pelas partes dê alguns passos para trás, e o desejo de cooperação, tão inerente ao ser humano como o de competir e vencer, ganhe espaço. 

Para finalizar uma história vinda da América do Norte:

Uma noite, o velho índio Cherokee contava ao seu neto sobre a luta que acontece dentro das pessoas. 

“A luta é entre dois lobos dentro de nós”. 

“Um é mau: raiva, inveja, arrependimento, ganância, arrogância, autocomiseração, culpa, ressentimento, inferioridade, mentira, falso orgulho, superioridade e ego”.

“O outro é bom: alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé”. 

O neto pensou por um minuto, e então perguntou: “Que lobo ganha”?

O velho índio simplesmente respondeu: “Aquele que você alimentar”.


PETER J. SUSEMIHL
peter.susemihl@ecosocial.com.br
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