ARTIGO | Alvo desfocado

Por Jorge Dornelles de Oliveira
Coach Organizacional e Executivo, 
Consultor do EcoSocial e Co-fundador da Escola de Coaches.
 

A polêmica em torno da criminalização do coaching abrange uma série de questões que merecem ser analisadas, a começar pelo alvo das discussões, desfocado a partir do princípio do que é a atividade no mundo e no Brasil.
 
A proposta que ganhou mais de 20 mil assinaturas, em trâmite no Congresso Nacional, demonstra desconhecimento sobre o coaching, conceito originalmente traduzido como treinamento ou orientação, e que na realidade brasileira assumiu conotações das mais diversas, culminando em “cura quântica e reprogramação do DNA”, -- conforme sustenta o texto em prol da criminalização da atividade, normalmente utilizada para o desenvolvimento profissional ou pessoal dos indivíduos.
 
O desgaste da palavra coaching fez com que a imagem do profissional coach fosse prejudicada -- em consequência das promessas de soluções para situações que requerem “consertos” -- e que se abrisse um grande guarda-chuva no qual foram abrigados diversos tipos de autoajuda, dos mais duvidosos aos menos confiáveis, nenhum deles em nada parecido com o que é a prática do coaching executivo hoje.
 
Assim como o mercado de coaching cresceu muito, no mundo, esse mercado de autoajuda também registrou uma expansão significativa, misturando as fronteiras de reconhecimento do que é um e outro para o consumidor incauto. Ao que tudo indica, no entanto, o alvo da criminalização se encontra nesse terreno das juras milagrosas, completamente distinto do coaching executivo tradicional que se pratica no Brasil há mais de 30 anos, e que representa um segmento bastante maduro e conhecido, no qual as empresas mantêm um padrão de contratação, com resultados consolidados.
 
Para começar, o coaching não conserta ninguém e também não tem a poder de fazer sumir instantaneamente nenhuma situação de crise ou dificuldade econômica e social. O verdadeiro processo de coaching é vivenciado a dois ou em grupos, entre o profissional coach e os seus clientes, e tem por objetivo movimentá-los na direção das mudanças que eles próprios desejam promover em sua vida. Exige muita bagagem teórica e prática, coisa que não se adquire da noite para o dia como prometem inúmeros cursos que vêm “socorrendo” (SIC) um crescente número de desempregados.
 
A atividade do coaching é multiprofissional, ou seja, variados segmentos podem se valer dos seus benefícios e qualquer profissional habilitado pode vir a utilizá-la, mas a sua aplicação requer uma bagagem teórica e prática para uma atuação eficaz. São cerca de 160 horas de preparação teórica e prática, no mínimo, para uma primeira formação, conforme a média de mercado, e em torno de 2700 horas para a obtenção da Certificação de Master Coach, segundo a International Coaching Federation - ICF, uma das maiores certificadoras do mundo.
 
O ecossistema do coaching vai muito bem, obrigado. Ele engloba profissionais coaches; empresas contratantes de serviços de coaching; empresas que prestam serviços e desenvolvem tecnologias ferramentas (assessements e sistemas de suporte entre outros); editoras; autores; escolas e entidades certificadoras como a ICF e a EMCC (Associação Européia de Mentoring e Coaching) --  que estabelecem padrões éticos de conduta para a atividade. Tem cerca de 50 mil profissionais atuantes, em todo o mundo, registra uma movimentação em torno de US$ 2,35 bilhões ao ano, e índices de crescimento expressivos: 20% nos últimos oito anos. Na América Latina são cerca de 4 mil os profissionais girando uma quantia de US$ 92 milhões, anualmente, conforme o último estudo realizado pela ICF, em 30 países do mundo, o Global Consumer Awareness Study, de 2017.
 
Qual o seu papel e reponsabilidades dentro deste ecossistema?
 
Uma regulamentação nos moldes que está sendo proposta passaria por formas mais rígidas de controle governamental, o que não soa adequado ao mercado ou à mentalidade de um mundo profissional contemporâneo como o nosso. É verdade que a solicitação de criminalização que tramita no Congresso Nacional soou como um estopim que reacendeu um antigo pedido de regulamentação da atividade de coaching. Mas pode representar um risco de engessá-la, visto que a sua maior atratividade reside no fato de poder abrigar profissionais de diferentes formações, funcionando como uma segunda carreira para muitos.
 
O que poderia ser mais razoável seria um caminho de autorregulamentação, como o que vivencia o setor da propaganda, no Brasil, obedecendo a múltiplas regras com o objetivo de garantir a qualidade, segurança e responsabilidade sobre determinados produtos e serviços. No caso do coaching, entidades certificadoras poderiam exercer papel semelhante. É  preciso ressaltar que, tanto para o coaching como para os processos de autoajuda, já existe o Código de Defesa do Consumidor, embora a atual polêmica pareça estar mesmo direcionada para o campo da autoajuda.
 
Quem faz coaching pautado no princípio de que quem está adquirindo os serviços é pleno, dotado de recursos e criativo, parte do pressuposto que o cliente (pessoa física ou jurídica ) é capaz de tomar suas próprias decisões. Um sistema que indica o que o ele pode ou não pode comprar, com a desculpa de protegê-lo, desconsidera este principio básico.
 
Uma alternativa para aperfeiçoar a avaliação dos consumidores brasileiros, seria aumentar e qualificar as informações a respeito das diferentes práticas de desenvolvimento profissional e pessoal, de forma que eles se tornem aptos a distinguir batatas de mandioquinhas, na hora de contratar um serviço.
 
O ideal é que sejamos livres para atuar num mercado em que profissionais e clientes conhecem a demanda e a oferta do tipo de serviço que procuram, adequando-as às suas necessidades. E que tenhamos maturidade suficiente para saber do que estamos tratando e qual alvo queremos, de fato, acertar.
 
 Concluindo: Que papel você quer desempenhar nesse ecossistema? O que vai fazer a respeito?

JORGE OLIVEIRA
jorge.oliveira@ecosocial.com.br
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