Artigo de Maria Angélica Carneiro

Em capítulos recentes da novela “O outro lado do Paraíso”, da TV Globo, o tema Coaching foi tratado por meio de cenas que exibiam advogados utilizando indevidamente a ferramenta, ou como meio para “fazer alguém falar.” O Coaching foi banalizado e usado erroneamente como uma exploração duvidosa de conteúdos pessoais a serviço do tribunal ou das investigações. Tal fato é estarrecedor para os coaches que estudam e trabalham com seriedade a serviço do desenvolvimento humano.
 
O conceito explícito no diálogo está correto: “Coaching de vida acontece em torno de um objetivo. Dependendo do objetivo, usamos técnicas para conduzir a pessoa pelo o que ela quer…”. Até aí perfeito, lembrando que o cliente é soberano no conteúdo e o coach no processo, e que ambos estão em sintonia em um acordo de objetivos comuns. Não foi o caso no exibido na novela. A intenção de obter informações não foi um bom exemplo de Coaching de vida. As intenções da trama estavam acima dos desejos e necessidades da suposta cliente, que nem sabia que estava sendo cliente de Coaching de vida.
 
Na sequência, há uma generalização perigosa: “toda pessoa sempre quer contar a sua história, só que as vezes tem medo, e eu ajudo a superar o medo…”. No Coaching, não existem suposições, julgamentos ou diagnósticos.
 
Além disso, fica explícito que o conteúdo da cliente estaria a serviço do contexto jurídico. O Coaching passou a ser técnica de facilitação para a ré falar, apesar dos advogados serem de defesa, e o diálogo escorrega também para o benefício de interesses profissionais. O advogado chefe diz: “Se você conseguir fazer esta mulher falar (faz promessas de crescimento profissional)...”. A advogada responde: “eu vou conseguir fazer esta mulher falar!”.
 
Um advogado, ou outros profissionais, até podem aprender e usar ferramentas de Coaching para um melhor relacionamento com seus clientes no exercício de sua função. Isso pressupõe o uso de algumas habilidades de Coaching tais como: estar mais presente, ter uma escuta mais atenta, fazer mais perguntas, e desenvolver empatia com o cliente sempre de forma clara. É um caminho de mão dupla, no sentido de ajudar o cliente a obter mais informações dele, e para ele.
 
É necessário preservar sempre os princípios de confidencialidade, e principalmente, ter total transparência ética sobre os conteúdos do cliente para o cliente, e jamais ter a finalidade de extrair informações deste, não explicitadas e desejadas por ele, para outros fins, e sem conhecimento e permissão do mesmo.
 
Nos capítulos recentes da novela, o Coaching foi largamente explorado como recurso e ferramenta das mais rápidas, como por exemplo “se quiser emagrecer é possível com conversas e exercícios ... além da hipnose como caminho para as memórias, todos nós temos segredos guardados... uma forma de se proteger da dor...”. Tudo isso pode acontecer no Coaching, mas num contexto totalmente protegido a serviço de mudanças e desenvolvimento desejado pelo cliente. E não no contexto da trama, com objetivos e finalidades explícitas de manipulação, vingança e poder, onde a suposta cliente é meio.
 
Se a ideia era divulgar e difundir o Coaching, não foi o melhor caminho. Rede Globo, me desculpe, foi propaganda enganosa!
 
Por Maria Angélica Carneiro 
Coach PCC,

Coordenadora da Formação de Coaches da Escola de Coaches do EcoSocial,
mentora e supervisora em Coaching.


 

 


Compartilhe >

EcoSocial

Newsletter

Linkedin Facebook