Por Terezilde Sampaio, 
consultora e coach associada ao EcoSocial 

Há mais ou menos 3 anos atrás estava conversando com uma cliente, diretora experiente de RH de uma grande organização, e ela muito preocupada me disse que a grande questão que ela estava vivendo era como lidar com o aumento de casos de pessoas com transtornos mentais dentro daquela empresa.  

Depois de décadas atuando com RH, ela já tinha passado por diversas situações difíceis de colaboradores com depressão, crises de ansiedade… “Mas como lidar com coisas novas, como o aumento de casos de automutilação, por exemplo? O que fazer com duas jovens com auto potencial que chegavam com cortes nos braços ou com unhas arrancadas?”, me dizia ela. 

Esse diálogo gerou em mim um emaranhado de outras perguntas já que não existe resposta simples e direta para a pergunta: como lidar com a saúde mental nas organizações? De lá pra, cá venho pacientemente desenrolado esses fios através de estudos, experiências e observações. Compartilharei algumas possibilidades sobre como a organização pode lidar com o tema.  

Percebam que comecei mudando um pouco o foco da pergunta: não me interessei em olhar para a doença, mas em olhar para a saúde que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Então a saúde é baseada num tripé onde o mental (=psíquico) já está presente.  

Quando estou com um cliente, seja individuo, grupo ou a organização, busco ajudar a restabelecer a potência, o que tem de saudável, pois isso possibilita lidar com as dores sem ficar aprisionado nelas. Gera movimento auspicioso para criar um futuro saudável se este for, de fato, desejado.  

O X da questão é que quando falamos em saúde mental, e automaticamente pensamos em doenças, em loucura. E mesmo com tantas informações disponíveis e o crescente número de casos, ainda é um grande tabu falar de angústia, de dor, de medo, de melancolia, de euforia.  

Eu prefiro usar o termo saúde psicorrelacional, pois remete ao campo psicológico e relacional do indivíduo. Muitas vezes, é preciso mudar a forma como nos relacionamos com nós mesmos, com os outros, com o contexto, com a vida. O foco não deve ser o que está acontecendo fora de mim, mas internamente como EU me relaciono com o que está fora. 

Ninguém se sente envergonhado ou culpado ao falar que está com problemas no estômago, coração, pulmão. Mas falar que está com problemas psicorrelacional é quase uma sentença de morte corporativa. E a pessoa vai ficando cada vez mais isolada e sozinha. Muitas vezes, quando procura ajuda, a doença já está instalada e daí será um longo e árduo caminho de volta à saúde plena.  

Além de ajudar a construir a sociedade, as organizações são palcos de desenvolvimento onde o Ser Humano pode realizar seu propósito e atingir sua plena potência. Contudo, mesmo depois de tantas transformações na forma de gerir negócios, algumas empresas, na prática, ainda usam o velho modelo comando-controle. Lidar com o ser humano que está atrás do crachá continua sendo desafiador para empresas, líderes e colegas de trabalho.  

Esse Ser Humano é muito mais do que um cargo, do que performance e resultados. O velho conselho de deixar os problemas quando se entra na empresa só funciona na teoria, mas na prática somos feitos de histórias, pensamentos, sentimentos, emoções, pequenos e/ou grandes traumas, sonhos e necessidades.  

Então, o primeiro e mais árduo passo é a transformação da cultura na qual o cuidado com as pessoas não seja apenas um belo discurso no quadro da parede, no qual, infelizmente, parece faltar um complemento: “cuidado com as pessoas… apenas para que elas produzam mais e melhor.”  

E como toda transformação cultural, a vontade e a mobilização das ações para lidar com a saúde é da alta direção e não apenas do RH. 

Outro passo importante que constatei nas minhas andanças por diversas organizações é que as pessoas precisam de um espaço onde possam ser reconhecidas, sentir que pertencem e que seu trabalho tem sentido, ouvir e serem ouvidas, serem vistas e aceitas na sua individualidade.  

Parece mágico quando abrimos espaços de diálogo genuíno nos quais é permitido falar de incômodos, de realizações, de sonhos, de medos. Promover encontros nos quais cada um possa se olhar e olhar para o outro como ele é, além de desenvolver os líderes para promover esses diálogos através do cultivo de um campo de confiança mútua. 

Assim, perceber o ser humano que está atrás do crachá significa criar uma cultura para a saúde psicorrelacional através de conversas autênticas e empáticas, com a intenção de acolher os diferentes e as diferenças. Isto pode ser um pequeno grande passo rumo à criação de um campo para que a saúde possa ser cultivada e fortalecida nas organizações. 



Veja mais Pensamentos vivos

Veja mais